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Autogestão e letramento digital · Dinheiro e pagamentos

Quem tem medo do Pix?

Um sistema de pagamento público, instantâneo e gratuito virou motivo de tarifa no governo dos Estados Unidos. Para entender por quê, a gente precisa começar por um prédio na Bélgica que quase ninguém conhece: o SWIFT.

Leitura de 12 minutos · fontes conferidas em 29 de outubro de 2026

Em quatro frases
  1. O SWIFT é a rede de mensagens que os bancos do mundo usam para combinar transferências internacionais. Ele não guarda dinheiro: ele leva as ordens.
  2. Quem controla o acesso a essa rede tem poder: o SWIFT já foi usado para cortar bancos do Irã e da Rússia do sistema financeiro mundial.
  3. O Pix é brasileiro e roda em reais, entre contas no Brasil. Mesmo assim, já dá para pagar com Pix em lojas da Flórida, da Argentina, de Portugal e de outros países, com uma empresa de câmbio no meio. Quem perde dinheiro com ele hoje são as bandeiras de cartão e as empresas de pagamento, não o SWIFT.
  4. O medo maior é do modelo: se sistemas públicos como o Pix se conectarem entre países, parte do dinheiro do mundo poderá circular sem passar pelos canais que hoje dão poder a poucos governos e empresas.

1. O caminho do dinheiro

Imagine que você vendeu um quadro para alguém em Portugal. O dinheiro não “voa” da conta da pessoa para a sua. O banco de lá precisa avisar o seu banco: quanto, para quem, em que moeda, por qual caminho. Como quase nunca os dois bancos têm conta um no outro, o pagamento passa por bancos no meio do caminho, chamados bancos correspondentes, muitas vezes em dólar. Cada parada cobra uma taxa e leva tempo. É por isso que receber do exterior demora dias e chega com desconto.

Para todos esses bancos conversarem, eles precisam de uma língua e de um correio em comum. Esse correio é o SWIFT.

2. O que é o SWIFT

SWIFT é a sigla em inglês de Sociedade para as Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais. Foi criado em 1973, tem sede na Bélgica e funciona como uma cooperativa: os donos são os próprios bancos e instituições que usam a rede. Hoje ele liga mais de 10 mil instituições em mais de 200 países e territórios.

O ponto mais importante: o SWIFT não move dinheiro. Ele transporta mensagens padronizadas, ordens do tipo “pague tanto a fulano”. Quem move o dinheiro de fato são os bancos, pelas contas que mantêm entre si. Mas, sem a mensagem, o pagamento não sai.

3. Por que ele existe

Antes do SWIFT, os bancos combinavam transferências internacionais por telex, um tipo de telegrama, com textos livres que cada banco escrevia do seu jeito. Era lento, caro e cheio de erro. O SWIFT resolveu isso com um formato padrão e uma rede segura. Com o tempo, virou o padrão do mundo. E quando um sistema vira padrão, sair dele fica muito caro.

4. Quem manda e quem defende

Na teoria, o SWIFT é neutro: uma cooperativa de bancos, sob a lei belga. Na prática, três coisas dão a ele um peso político enorme.

  • Quem fiscaliza: o SWIFT é supervisionado pelos bancos centrais dos países mais ricos, o chamado G10, sob a liderança do Banco Nacional da Bélgica. O próprio Banco Central Europeu descreveu essa supervisão como feita mais por “persuasão moral” do que por regras com punição.
  • Quem pode desligar: como está na Europa, o SWIFT precisa cumprir as sanções da União Europeia. Em março de 2012, depois de uma decisão do Conselho da UE, desligou bancos iranianos, algo que o próprio SWIFT chamou de passo sem precedentes. Em março de 2022, por um regulamento europeu, desligou sete bancos russos depois da invasão da Ucrânia.
  • Quem ganha com o caminho: boa parte das transferências internacionais passa por bancos correspondentes em dólar, o que dá aos Estados Unidos alcance sobre transações que nem acontecem no território deles.

Quem defende esse arranjo são, antes de tudo, os governos que têm voz na supervisão e se beneficiam da capacidade de sancionar, e os grandes bancos que lucram com taxas e câmbio em cada parada. Do outro lado, os países que já foram ou podem ser alvo de sanções criaram alternativas próprias: a Rússia montou o SPFS e a China, o CIPS. O sistema financeiro mundial não é só técnica: é também infraestrutura de poder.

5. E o Pix?

O Pix foi criado pelo Banco Central do Brasil e começou a funcionar em novembro de 2020. Ele é instantâneo, funciona 24 horas por dia e é gratuito para pessoas físicas. O Banco Central também limita quanto os bancos podem cobrar das empresas.

Segundo dados levantados por um técnico do Banco Central em artigo de dezembro de 2025, o Pix já era usado por cerca de 177 milhões de pessoas, mais de 80% da população, com cerca de 7 bilhões de transações por mês. A revista The Economist, citada pelo blog IELP, estimou que pelo menos 70 milhões de pessoas entraram no sistema financeiro formal desde o lançamento.

Para quem vende arte em feira, o Pix mudou o jogo: o dinheiro cai na hora, sem maquininha e sem perder uma parte em taxa.

O Pix já atravessou a fronteira

Quem viaja já viu: lojas na Flórida, em Buenos Aires, em Montevidéu e em Lisboa colocam a plaquinha “aceitamos Pix” para atender turistas brasileiros. Isso é real e está crescendo. A Folha de Pernambuco mostrou o Pix ganhando espaço nos lugares mais visitados por brasileiros, e o setor financeiro já fala em compras com Pix em pelo menos oito países: Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Estados Unidos, Portugal, Espanha e França.

Alguns exemplos:

  • Estados Unidos: a empresa brasileira PagBrasil se juntou à fabricante de maquininhas Verifone para levar o Pix ao comércio americano. A Flórida concentra a maior parte das lojas parceiras.
  • Argentina: desde fevereiro de 2025, maquininhas do Mercado Pago aceitam Pix de turistas brasileiros. Em março de 2026, o Banco do Brasil lançou o mesmo serviço com o Banco Patagonia.

Como funciona: a loja mostra um QR Code, você lê com o app do seu banco, vê o valor já em reais e paga um Pix normal, em reais, para uma conta no Brasil. Essa conta é de uma empresa de câmbio autorizada pelo Banco Central (chamada eFX), que converte o dinheiro e paga a loja em dólar, peso ou euro. Segundo o Finsiders, o Banco Central trata o Pix como um sistema doméstico: não existe ainda um “Pix internacional” oficial. Como há troca de moeda, a compra paga IOF de 3,5%, como no cartão; a economia vem do câmbio e de taxas menores.

Ou seja: o Pix já é usado fora do Brasil, mas o Pix em si continua sendo um pagamento em real, rodando dentro do sistema brasileiro. A ponte com a moeda de fora é feita por empresas, não pelo Pix.

6. Quem tem medo de verdade

Aqui está a parte que pouca gente conta: hoje, quem mais perde com o Pix não é o SWIFT. Uma transferência entre dois brasileiros nunca passou pelo SWIFT. Quem perde são as bandeiras de cartão (como Visa e Mastercard) e as empresas de pagamento, porque cada Pix é uma compra que poderia ter sido feita no cartão, com taxa.

E a taxa no Brasil é alta. No mesmo artigo do ProMarket, o técnico do Banco Central compara a taxa média do cartão de crédito no Brasil, cerca de 2,2%, com cerca de 0,3% na União Europeia, onde a lei limita essas tarifas. Para The Economist, o Pix pode acabar apertando os lucros das bandeiras “por taxas menores, não por menos transações”.

A tarifa dos Estados Unidos

  1. Por ordem do presidente Donald Trump, o Representante de Comércio dos EUA (USTR) abre uma investigação contra o Brasil pela Seção 301, uma lei americana que permite punir países por práticas comerciais consideradas injustas. Um dos seis temas é “comércio digital e serviços de pagamento eletrônico”.
  2. O USTR conclui que o Brasil prejudicou empresas americanas de pagamento “com políticas que favorecem seu campeão nacional”. No documento oficial, o Pix aparece pelo nome: o governo americano reclama que o Banco Central obriga instituições com mais de 500 mil contas a oferecer o Pix e limita as taxas cobradas das empresas.
  3. O USTR anuncia tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, em vigor desde 22 de julho de 2026, com exceções. A punição vale para toda a lista de queixas, não só para o Pix.

Quem falou o quê

Na consulta pública, segundo o resumo do IELP:

Contra o Pix

A Câmara de Comércio dos EUA disse que o Banco Central “regula e ao mesmo tempo compete” com as empresas de pagamento. O ITI, associação de lobby das grandes empresas de tecnologia, da qual Visa e Mastercard são membros, reclamou que as bandeiras americanas não podem iniciar pagamentos pelo Pix e criticou regras como o lugar de destaque do ícone do Pix nos aplicativos dos bancos.

A favor do Pix

O governo brasileiro defendeu o Pix como infraestrutura pública digital, aberta também a empresas estrangeiras. A ONG americana Public Citizen e a Data Privacy Brasil lembraram que mais de 900 instituições participam do sistema. A economista Monica de Bolle, do instituto PIIE, de Washington, chamou de “absurdo” tratar um sistema público de pagamento como barreira comercial.

O lobby das bandeiras tem nome

As bandeiras de cartão não precisaram assinar a queixa com o próprio nome: falaram pela associação que pagam para isso. Visa e Mastercard estão na lista oficial de membros do ITI. Quando a Visa entrou, em 2014, o próprio ITI anunciou que iria “defender as prioridades políticas” da empresa, e a Visa chamou o ITI de “parceiro valioso”. Foi esse ITI que levou ao governo americano a queixa de que as bandeiras não podem iniciar pagamentos pelo Pix. E, quando o USTR concluiu a investigação, o ITI “apoiou fortemente” a conclusão de que empresas americanas enfrentam barreiras no Brasil, pedindo apenas que a punição não fosse uma tarifa geral.

É assim que lobby funciona: a empresa não aparece, a associação fala por ela, e o governo transforma a queixa em política. Todos esses documentos são públicos.

Um cuidado: o SWIFT e as bandeiras de cartão são coisas diferentes. O SWIFT pertence aos bancos que usam a rede, e Visa e Mastercard não fazem parte do seu comando. O que o Pix ameaça hoje, diretamente, é o negócio das bandeiras; o SWIFT entra na história pelo que vem depois (veja a próxima parte).

7. Então por que o Pix ameaça o SWIFT?

Por enquanto, não ameaça diretamente. Mesmo o Pix pago numa loja da Flórida é um Pix em reais entre contas no Brasil; a troca por dólar acontece depois, na empresa de câmbio, pelos caminhos de sempre. Mas esse uso no exterior já mostra a força do Pix: as lojas de fora estão se adaptando a um sistema brasileiro, e não o contrário. A ameaça é o que ele mostra e o que pode vir a ser.

  • Mostra que infraestrutura de pagamento pode ser pública e gratuita. Se dá certo no Brasil, outros países se perguntam por que pagar pedágio a empresas privadas estrangeiras. O Atlantic Council alertou que a Europa, que prepara o euro digital, deveria prestar atenção ao caso brasileiro.
  • Sistemas instantâneos podem se ligar entre países. O Projeto Nexus, que nasceu no Banco de Compensações Internacionais (BIS), o “banco central dos bancos centrais”, conecta sistemas como o Pix de vários países por uma única ponte. Em 2025, os bancos centrais de Índia, Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia criaram uma empresa para colocá-lo em funcionamento, e o Pix é candidato a se conectar.
  • Menos paradas, menos poder. Um pagamento internacional que vai de sistema público para sistema público precisa de menos bancos correspondentes e de menos mensagens pelos canais de sempre. Isso barateia a transferência e também diminui a capacidade de poucos governos de vigiar e bloquear o dinheiro dos outros.

É aqui que o medo faz sentido: não é sobre uma transferência de R$ 50, e sim sobre quem controla os trilhos por onde o dinheiro do mundo passa.

8. O que isso tem a ver com você, artista

  • Taxa é parte do preço. Uma venda de R$ 300 no crédito pode deixar alguns reais na maquininha. No Pix, o valor chega inteiro. Vale saber disso na hora de negociar.
  • Receber do exterior ainda é caro. Venda internacional passa pelos caminhos antigos, com várias taxas e câmbio. Compare antes de escolher a plataforma.
  • Tecnologia não é neutra. Pix, cartão, Instagram, inteligência artificial: toda ferramenta tem dono, regras e interesses. Entender quem ganha ajuda a decidir de quem depender.

Glossário rápido

SWIFT
Rede de mensagens que os bancos usam para combinar transferências internacionais.
Banco correspondente
Banco no meio do caminho de um pagamento internacional, que guarda contas de outros bancos.
Bandeira de cartão
Empresa que define as regras e cobra pela rede do cartão, como Visa e Mastercard.
Sanção
Punição econômica de um país contra outro, como bloquear bancos ou proibir negócios.
Seção 301
Lei dos EUA que permite punir outros países por práticas comerciais que o governo americano considera injustas.
eFX
Empresa de câmbio autorizada pelo Banco Central que recebe o seu Pix em reais e paga a loja no exterior na moeda de lá.
Infraestrutura pública digital
Sistema digital básico mantido pelo Estado e aberto a todos, como o Pix.

Para conversar no coletivo

  1. Na sua última feira, quantas vendas foram no Pix e quantas no cartão? Quanto ficou em taxa?
  2. Quem deveria controlar a infraestrutura por onde o dinheiro passa: o Estado, empresas privadas ou cooperativas?
  3. Que outras tecnologias do seu dia a dia são “trilhos” controlados por poucos?

Fontes

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